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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Da desunião duradoura (trecho)

A separação seria a melhor solução. Assim pensavam os vizinhos, cansados de ouvir os gritos e também os homens da coleta de lixo, cansados de juntar cacos. Mas ela, por pena, e ele, por comodidade, adiavam a decisão indefinidamente. 

As cenas já se fizeram corriqueiras. Eles brigam enquanto bebem uma cervejinha, brigam enquanto ela amorosamente lhe prepara a janta, brigam enquanto não dormem, na cama que já dividem há mais de vinte anos.

Antes de dormir, rezam rezas muito íntimas e sem sentido. Agradecem a vida que levam e para tudo dizem amém.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Nos momentos mais difíceis [2] - a partir de um poema de H. Tafuri

Nos momentos mais difíceis [2]

Nos momentos mais difíceis,
apelavam pro santo de predileção
ou lamentavam a ausência do Zico
ou afogavam as mágoas ao som dum samba-canção.

De tudo - samba-canção e santo e Zico -,
pouca coisa resta vivível. E pelos templos vazios
da memória fico a buscar (des)caminhos
por onde novamente passear.

Como se os mortos -
que já estiveram vivos antigamente
e torciam pro Zico, e gostavam de samba-canção e rezavam pro santo -,
com devoção,
andassem de novo por sobre a terra.

Confuso, vejo que ninguém segura mais a minha mão.

sábado, 24 de setembro de 2011

Currículo Lote-se



Currículo Lote-se

Não dos pênaltis nem das punhas
batidos nas e pelas peladas.

Não da versalhada escrita à ligeira,
toscamente arranjada, para 
talvez um dia ser vendida,
na feira.

Não dos amigos 
nem dos incidentes de viagens.
Não do frio na barriga, 
nem da cara dura  
e ainda menos das piranhagens.

Não. Nos tempos que correm,
o que se exige do homem,
é que lote-se de "seriedade". Mais: 
que lote-se de "produtividade".

Que escreva artigos, 
que publique trabalhos,
que defenda dissertações, 
que prepare teses.

Para alimentar o insaciável currículo lote-se,
a vida lota-se
de fezes.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Saúdo aos companheiros verdadistas


Saúdo aos companheiros verdadistas,
que na tarde cálida,
me tiram da burrocracia esquálida
para o calor e a cor da poesia da vida!

Gonzaga, nas Minas setecentistas,
dizia em meio tom à ingênua Marília: gozemos!
E hoje, aos poetas da "geração dez", eu digo,
em altos brados:
publiquemos!

Publiquemos e saltemos do anonimato
para a plena luz do dia.
Apesar da crítica,
apesar dos entraves da Funalfa
e apesar dos trambiques dos caras de Brasília.

Saúdo aos companheiros verdadistas
e a eles me junto com minha pouca poesia.
E que de tudo nos sobre o blogue, e a blague
e essa agitação alegre, sem traço de sensaboria.

Ilustração deste post: "La alegría de vivir", de Pablo Picasso. Reprodução disponível para visualização em http://pintura.aut.org/.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O resto não existiu (fragmento)

Uma senhora se senta na cozinha de sua casa e escreve, com letra insegura, em um caderninho que intitula de diário. Anos depois esse mesmo caderno será manuseado por seu neto e este, entre maravilhado e nostálgico, tenta compreender os motivos por que sua avó escreveu certas passagens de sua vida e omitiu outras que ele conhece de ouvir falar. Mais: pensa como ele pode reunir todos os fragmentos de vida que estão ali descritos e deles fazer algo.

Seu maior desafio: o material de que dispõe é muito diáfano e muito disperso. A avó trata de fatos distantes no tempo e aos quais esse neto esteve ausente porque nem sequer habitava este mundo. Como conhecerá ele o resto? Que será o resto? O resto não existiu. Essa é a premissa que rege seu trabalho. E uma vez que o resto não existiu, ele pode ser criado ou imaginado.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Quase (poesia de circunstância)

 Quase*

Estava tudo em seu lugar determinado:
o parafuso no seu curso, a chave na fenda.
e minha mão no cabo.

Mas, num movimento desajeitado,
forçou-se um tal desvio
que depois dele foi tudo dor e desvario.

Corro a lavar-me, com medo de estar cego
lavo-me, desesperado, e, por sorte, ainda enxergo.
Me encho de um regozijo, me alegro.

Mas isto dura apenas um momento,
até que ouço que a culpa é minha,
por descuidado que sou e desatento.


* A publicação desta poesia aqui no "Verdades Provisórias" é um claro caso de autoplágio. Copio de mim mesmo, transferindo textos de um blog para outro para manter todos atualizados. De qualquer maneira, espero que os leitores gostem.

A imagem que ilustra esta postagem é, na verdade, um quadro do pintor francês Odilon Redon (1840-1916) intitulado "Olho Balão". Redon é um pintor considerado pós-impressionista e simbolista ou, ainda, um dos precursores do surrealismo. A obra está disponível para visualização no site: http://pintura.aut.org/

terça-feira, 2 de novembro de 2010

... da série "Minhas criações alheias"

3. O que me deste (a partir de um poema de Camila Fonseca de Oliveira)

O apreço que diz não me ter,
eu nunca o quis receber.

Seu sentimento,
com meu consentimento,
fez-se pau, pedra, cimento.

Não, não me ofereça o seu lamento:
a mim me basta minha própria dor,
que a um só tempo é alento e é prazer.

Mórbido que seja,
há gosto para tudo.
Há apetite para tudo.

E contudo deixo-me prender,
recebendo, mas fingindo não querer,
sua luxúria e sua cobiça e sua preguiça,
só para me satisfazer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Amores virtuais (poesia)

Amores virtuais

Conheceu à distância uma pessoa que insinuou lhe querer bem.
Despreparado que estava para o amor,
desnudou sua alma para esse alguém.

Acertou? Errou? Não sei.
Teve apenas que aceitar esse torpor
de ver partir um amor de imaginação.
E não guarda rancor a essa pessoa de longe,
(pelo menos é o que diz)

Moral da história: no mundo real ou no virtual,
segue valendo a pieguice de que amores vêm e vão.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Brincadeira (poesia)

Brincadeira

- Foi brincadeira, desculpe se te ofendeu.
- Não, esteja tranquilo. Não guardo rancor.
- Oh, por favor, me desculpe. Não tinha a intenção.
- Que nada, eu que disse uma palavra errada, mote à avacalhação. O culpado fui eu.
- E por colocar tantos panos quentes, o pobre se f...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

... e outro mais

Hoje acrescento ao blog outro poema da série "Minhas criações alheias". Me alegraria se houvessem comentários!

7. A mala da moça, a moça da mala (a partir de um poema de Peterson Basílio)

Não sei em que pensaria a mala da moça
se possível fosse a essa mala pensar.
Menos ainda o que pensa a moça da mala,
de quem só sei que a mala é uma sombra furtiva
As duas constantemente juntas em todo e qualquer lugar.

Mala suerte a minha
que dependo dessa mala, dessa moça
para ter minha parcela de alegria.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Mais um...

E aqui mais um poema da série "As minhas criaçoes alheias", projeto que foi proposto por Hernany Tafuri e que consiste em que cada um de nós crie algo a partir de uma frase, de uma idéia, uma imagem que exista nos poemas de nossos colegas de "Verdades Provisórias"


2. XXXI (a partir de um poema de Edmon Neto de Oliveira)

Uma vez que se riscou os manuscrito,
e já foi dado o grito,
(grito de pretensa interação)
poder-se-ia então dialogar.

Mas cadê as palavra
desses nego foda,
que briga, que deita e que rola
quando surge alguma intriga?

Somem no nada.
Se fundem no apito do trem que passa.
Ou se diluem na densa fumaça
dos que comungam sentados naquela esquina.

De um jeito ou de outro,
"nego viaja nego pira".

sábado, 24 de julho de 2010

Palinha

O pessoal que lida com música é que poderá dizer se utilizo os termos certos na hora de nomear minhas postagens. O que eu sei é que desejo dar uma amostra dos poemas que entraram no Verdades. Para isso, apresentarei outros poemas (meus) que criei a partir dos poemas que os colegas incluíram no livro.

Faltará a referência e isso por um lado é ruim. Por outro lado, porém, pode servir de aperitivo para o livro inteiro, que então será mais desejado - pelos autores e pelos curiosos que a minha postagem possa atrair.

Minhas criações alheias

1. Esforços no tempo (a partir de um poema de Hernany Tafuri)

Após acolher as saudades
e desvanecer os sonhos,
(matematicamente desfeitos
em cogitações filosofais)
resta ao poeta - e ao cidadão -
os deveres mais abjetos
e, no entanto, mais normais:
deixar-se devorar por números,
papéis, compromissos e trâmites legais.

Daqui em diante,
o que vier
será custo.

domingo, 4 de julho de 2010

O ônus da morte de José Saramago


O ônus da morte de José Saramago

Foi a ela, de cujas intermitências, um dia, ele tratou;
que hoje, com uma discreta altivez, ele se entregou.
“Morre o único Nobel do Português”:
é só o que dizem os jornais.

Mas ninguém se importou.
Lá fora, ao som das vuvuzelas,
O povo grita, louco, cada vez que sai um gol.

Estamparam-lhe a foto do perfil, do rosto,
das mãos, dos livros, dos óculos de aros garrafais.
Por um dia a literatura foi a notícia da vez.
Um só dia e nada mais.

No dia seguinte ninguém mais lembrou.
Lá fora, ao som de buzinas e festas,
O povo se agita, rouco, cada vez que sai um gol.

Pobres de nós que esperamos pelo grito do Adamastor.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobras de Estúdio II

Dando seqüência à publicação dos abortados, segue esse poeminha "pecador arrependido", crítica mal velada a esse puritanismo brasileiro.

Recusa
(encontrado na contracapa de uma Bíblia)

Lembro-me do seu corpo escultural,
e dos gestos convidativos, fesceninos, que fazia
à porta de um local aonde não me aventuraria.

Eu podia ter ido até você,
podíamos ter trocado beijos cálidos,
podíamos...
Mas não saí de onde estava:
preferi ficar no antegozo, ainda sagrado,
daquilo que poderia ter sido.